Perdão, Edna.

 

Não curto mergulho.

Tenho medo, fobia e acho uma falta de educação com os peixes.

Peixe tá lá na dele assistindo um Jornal Nacional com a família, uma série do Netflix ou numa reunião, e do nada, entra do nada um humano desconhecido com um pé de pato ridículo fosforescente.

Algum peixe já entrou na sua casa assim?

Então.

Mas dessa vez era Noronha.

-Também não gosto de snorkel, tenho um nojo absurdo.

Mas era Noronha.

Quantas pessoas já babaram ali?

Noronha.

-Tá, só vou baixar a cabeça rapidinho sem respirar, ok?

Falei pra Edna, a guia que me convenceu.

– Você nem vai ver passar.

Mas quando a gente estava saindo para o mar um cara falou para ela:

-Não esquece que a praia fecha ás 16h.

-Como assim uma praia fecha?

-É por causa do ataque de tubarão que teve aqui.

-O queeeeeee? Falei já vestida com todo o equipamento e o pé de pato.

-Não precisa ter medo eles não fazem nada.

– Não quero mais ir… tenho medo de Tubarão desde 1992 quando tinha aquele filme na Tela Quente com aquela música que vai crescendo quando ele vai se aproximando.

Ela nem ouviu e foi me puxando.

-Cadê o mergulhador que vai me levar?

– Eu vou te levar. Disse a Edna.

-Você? Minha perna bambeou.

Pausa aqui para meu feminismo tomar água.

Nunca na vida imaginei uma mulher me defendendo de um ataque de um tubarão.

Sempre imaginei um cara fazendo isso.

Mas se eu falasse isso, cairia por terra todo meu ativismo.

Fui meio chorando para o mar.

-Cadê a lancha?

– Que lancha? Somos nós duas nessa boia.

Eu e a Edna em alto mar com golfinhos, tartarugas, peixes com estampas incríveis, tubarões e uma boia vermelha super instagramável.

Fui rezando o pai nosso.

Quando estávamos em alto mar verde claro deslumbrante, lembrei que além do tubarão ainda tinha o snorkel.

Quantas pessoas desconhecidas babaram ali naquele cano que estava na minha boca?

Era muita coisa para superar.

Saindo desse mar eu vou voltar para São Paulo, chega.

Baixei a cabeça e fui indo.

Comecei a ver muito peixes coloridos, dei uma desencanada.

Caralho, era bonito mesmo lá embaixo.

Vi um peixe roxo com amarelo, nunca pensei em misturar essas cores, mas ficou linda nele.

Chegando vou fazer essa mistura numa roupa.

Meu Deus! Um rosa millenium.

Mais para frente vários listrados de azul fosforecente.

-Migo, arrasou na estampa se a C&A te vê você vira coleção.

Tudo muito lindo, mas, quem colocou a boca aqui antes de mim?

Não conseguia me concentrar.

Quanto de baba tinha naquele snorkel?

Colocar isso é como beijar um desconhecido por 1 hora.

Enquanto eu pensava nisso uma tartaruga bebê, que linda.

Quantas vezes uma pessoa baba num snorkel em uma hora?

Vou pesquisar no Google quando chegar.

Enquanto eu pensava isso a mãe da tartaruga bebê apareceu. Esqueci o snorkel por alguns minutos para olhar porque ela tinha o tamanho da minha mesa de jantar de 8 lugares e nadava com uma tranquilidade de dona do mar.

Posso jurar que ela me mandou um beijo.

Mas talvez tenha sido com o olhar.

A Edna fazia joia com a mão a cada 5 minutos para saber se eu estava bem.

O fundo do mar de Noronha era lindo e eu respondia que sim, estava tudo maravilhoso.

Esqueci da baba do snorkel.

Esqueci do medo do tubarão.

Esqueci do medo de não ser um cara me defendendo e fui muito feliz enquanto durou o mergulho.

Saindo do mar abracei a Edna emocionada.

Contei para ela do meu medo de ir com ela para o mar.

Pedi desculpas dizendo que minha carteirinha de feminista deveria ser cassada.

Ela riu e disse que eu não era a primeira a ter esse preconceito.

“Muitos desistem na minha cara, bom para os meninos, que lucram mais que eu”.

Falou sem raiva nenhuma apenas como constatação.

Escrevo esse texto para dizer que a Edna é foda e não tenho dúvidas que ela sairia na mão com qualquer tubarão para me defender.

Não cometam o mesmo erro que eu.

Procurem por ela na Praia do Sueste.

Perdão, Edna.

O Google e a minha mãe

Sou paranóica com quase tudo na vida, vocês sabem.
Mas com uma coisa nunca fui.
Não sou o tipo de pessoa que vê uma barata e começa a gritar maluca. Tenho amiga que chora, grita e faz escândalo . Com rato e pombo eu faço, com barata não.
Se precisar muito eu mato até com a mão.
Tenho nojo? Tenho, mas não me descabelo com isso.
Piso em cima e acabou o problema.
Peço até desculpas.
Plaft- barulho de esmagamento.
-Miga, sorry. Mas eu tenho que fazer o que a sociedade espera de mim.
Confesso que, às vezes, nem mato.
Converso com elas.
Um dia estava tão cansada, mas tão cansada, que mal conseguia me mover.
Deitada no sofá, vi uma de longe.
-Não acredito que vou ter que levantar para te matar. Vamos fazer o seguinte: vou fingir que não estou te vendo, ok? Fica bom para nós duas. Pensa que Deus está te dando uma segunda chance, aproveita. Some nesse mundão.
Essa era inteligente e não perdeu a chance.
Mas tem outras muito burras, não me conformo.
Esses dias uma delas veio vindo na minha direção.
-Miga do céu, que cê tá fazendo? Foge, sua louca .
E ela continuou até chegar no meu pé.
Até ficar cara a cara com a sola do meu sapato.
Até hoje não sei se ela estava me desafiando ou era cega.
-Assim você me complica, vou ter que te matar, olha onde vc tá? Embaixo do meu pé.
Plaft- barulho de esmagamento.
Não tive outra alternativa, mas acho que matei uma uma líder, ou alguém muito importante no mundo delas e sofri retaliação.
Dias depois estava me arrumando para sair e quando coloquei o sapato senti
um negócio estranho, mas continuei andando.
Comecei a ouvir um crack crack.
Tirei o sapato.
Ela saiu meio mancando, meio morta, meio viva e totalmente massacrada pelo meu pé.
Fiquei em estado de choque por alguns segundos.
Quando vi meu dedão tava vermelho.
Ela tinha me mordidoooooooooooooooooooo.
Quantas pessoas vocês conhecem que foram mordidas por barata?
Corri para o Google, que mandou passar álcool, que avisou que podia infeccionar, que poderia causar infarto do miocárdio, futuramente câncer e que eu poderia morrer em seguida agonizando sem nem conseguir pedir ajuda.
Aff Google, cala a boca.
Passado o choque e tudo desinfetado fui contar para minha mãe.
-Mãe, uma barata me mordeu.
-Barata não morde.
-Essa mordia meu dedão tá vermelho.
-Não era outro bicho?
-Mãe era barata, esmaguei ela com o pé, fez até crack.
-Meu Deus, então não era do Brasil.
Minha mãe tem os melhores comentários do mundo.
Conto que fui mordida por uma barata e ela acha que era uma barata internacional.
“Barata daqui não morde”.
-Claro que era do Brasil, como que ia chegar aqui uma barata europeia? Essa saiu de dentro do ralo de Pinheiros, absolutamente paulistana, se duvidar votou até no Dória, pude até ouvir ela falando: Mano do céu enquanto cambaleava.
– “Meu deus, desinfeta urgente, isso pode causar uma doença grave e até matar”

-Tá.

Se vocês forem mordidos por baratas um dia não procurem duas pessoas:
O Google e a minha mãe.
Desinfetem e continuem a vida.
Vai ficar tudo bem.

Adeus, lençol da Trousseau

 

Acordei feliz achando que seria hoje a grande noite. Finalmente dormirei num lençol egípcio de 20 mil fios da Trousseau.
Não tinha como dar errado, pois era Black Friday e tava anunciado na loja de lençóis mais caros do mundo que o desconto seria de 90%.
Mas aí vem a vida com o seu machado de cortar caprichos.
Entro na loja, e já levo o primeiro golpe.
-Por favor, os lençóis de 20 mil fios egípcios estão com desconto?
Vendedora blasé me diz que sim e vou empolgada ver os modelos.Todos são lindos e eu já penso que levarei três, um de cada cor.
-Quanto é esse jogo?
– Esse tá 910.
– Não, já me fala com o desconto.
– Com o desconto é 910.
Dou uma mini morrida rápida, mas tento me recompor e ela continua o massacre.
– O preço de tabela dele é 1.890.
– Mas vem com o que mais, fora o lençol?
( Casa com piscina? Marido? Dois filhos? Cachorro?)
– Vem com duas fronhas e dois lençóis.
“Mas são lençóis egípcios, de 20 mil fios, confeccionados manualmente ( fio a fio, sendo que ao todo são vinte mil fios) por Faraós atléticos com abdômen definido com cinco gomos e algodões cultivados em solo úmido molhado durante as cheias do Rio Nilo”.
Essa parte ela não disse, eu que inventei, mas pelo preço só pode ser isso.
– Faz assim, esquece o lençol,vamos ver as toalhas. (falei com esperança)
– As toalhas estão por 420.
– Todas as toalhas da loja juntas?
Até que tava barato.
– Cada toalha individual.
Ela falou totalmente sem paciência para minha pobreza.
-E as de rosto?
Rimos muito.
Mas só eu ri.
De nervoso.

Escrevo esse texto deitada no meu
MMartan de dez fios, muito desiludida com a Black Friday da Trousseau.

Parabéns para mim

Pelo tanto de parabéns que já dei para vocês.

Hoje me dei conta que faz onze anos que estou no Facebook.
Uma vida né, gente?
Mas não estou contando isso para ganhar parabéns por estar tantos anos morando aqui nessa rede social.
Estou contando porque me dei conta dos (milhões) de parabéns que já dei para vocês.
Pensem comigo.
E um cálculo bem louco, mas vamos lá.
tenho uma média de mil e seiscentos amigos, vamos considerar que (no mínimo) cinco dessas pessoas fazem aniversário por dia.
Agora multiplica esses cinco por 365 e chegue a algo em torno de 1.825 mensagens por ano.
Agora multiplica isso por onze anos, que é o tempo que estou aqui.
Significa que (pasmem) desejei aproximadamente 20.075 vezes felicidades para vocês.
Não tenho como calcular isso em horas, mas dava para:
Ter tido uns três filhos, escrito uns dois livros, feito uns 300 bolos.
Mas não, passei esse tempo todo escrevendo:
“Toda felicidade do mundo, querida”
“Continue sendo maravilhosa, amiga”
“Seja cada dia mais feliz”
“Aproveite seu dia”
“Voce merece as coisas mais incríveis”
Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá!
Eu sempre quero escrever alguma coisa que tenha a ver com a pessoa. Vira um job e enlouqueço.
E o Facebook ainda cobra, esse maldito.
Já deu parabéns para fulano hoje?
Faz chantagem:
Hoje é aniversário de fulana, vai perder a chance de dar parabéns para ela?
Vou perder.
Vou perder sim.
Voooooooooooooou perder mesmo.
Hoje gritei com a tela do computador, bem louca.
“Sentindo-se esgotada de tento parabenizar vocês”
Não vou mais parabenizar ninguém.
Não guardem mágoas.
Apenas desejarei as melhores coisas do mundo (em pensamento).
Mas se chegar o dia do meu aniversário, e ninguém me escrever, nossa! vou ficar bem chateada.
Nada de vingancinha boba, tá?
Não custa nada, são só alguns minutinhos.
É tão bom quando tem um monte de mensagens.
A gente se sente tão amada.
Parabéns para quem não faz esses cálculos neuróticos.
Deve ser bem legal levar uma vida normal.
Nunca tentei.

Amiga, cê tá bem?

Eu tive dois grandes sonhos de infância que não se realizaram.
Um deles era ter uma Mobilete vermelha.
O outro era quebrar um braço, uma perna, um pé, uma mão, qualquer coisa que me fizesse engessar alguma parte do corpo.
Como eu queria chegar no colégio e ouvir todo mundo comentando:
-Meu Deus, o que aconteceu?
-Que dor você deve ter sentido.
-Como foi isso?
A criança que chegava com gesso era automaticamente lançada ao posto de celebridade da semana, e até do mês, caso ninguém mais se machucasse no período.
Valia a pena cair de um pé de goiaba para alcançar essa glória.
E depois, ainda vinha a melhor parte: as mensagens eternizadas pela Bic no gesso branquinho.
Eu sonhava com esse momento, que nunca aconteceu.
Quebrei apenas um único dedo e só enfaixaram.
Lembro até de ter feito uma cena no pronto socorro:
doendo muito, engessa peloamordedeus!
Não só enfaixaram, como ainda colocaram uma tala com palito de sorvete para humilhar bem, virei motivo de piada.
-Alá que tonta, quebrou o dedo.
Hoje quando vejo essas pessoas fazendo check-in em hospital, ou colocando fotos filtradas enquanto tomam soro, primeiro eu tenho vontade de bater, depois sinto compaixão.
Sei que são apenas crianças que um dia sonharam em ter o braço engessado e seguem pedindo a atenção.
Fulano fez check-in em Albert Einstein.
Fulana fez check-in em Sírio Libanês.
Notem que check-in em SUS ninguém dá.
É sempre em hospital ostentação.
“Tô mal, mas tô arrasando”.
Em seguida, pode esperar que vem a famosa foto do braço esticado com legenda triste e um emoji chateado.
E começam a chegar as condolências virtuais:
Amiga, ta bem?
-O que houve?
-Precisando de algo estamos aqui.
-Melhoras, vai ficar tudo bem!
Curiosa que sou, leio os comentários para ver se tem alguma pista do que a fulana(o) tem.
Mas nunca é grave.
Se fosse, não tinha fotinho filtrada no insta.
No fundo, ainda somos aquelas crianças esperando o amigo escrever no nosso gesso imaginário.
Saímos da quinta série direto para as redes sociais.
Não estamos bem, mas vamos melhorar.
Quem sabe um dia a gente cresce?

A menina que fez xixi na roda gigante

Naquela época, ninguém nunca tinha ouvido falar em bullying, mas sou testemunha que ele já existia, e passei anos sofrendo seus efeitos.

A menina da roda gigante era eu.

Fui apontada na rua, na escola, no mercado, no clube, nas festinhas.

Em todo lugar que eu ia era um inferno:
-Alá a do xixi!
-Você é a que fez xixi, né?
-Não é ela que fez xixi na roda gigante?

Só faltava dar autógrafo e tirar selfie com desconhecidos.
Virei uma espécie de celebridade ao contrário com sete anos.

Era para ser ter sido só um passeio normal com a família no domingo.
Na fila, já avisei minha mãe:
-Quero fazer xixi.
-Agora não dá mais.
-Não vou segurar.
-Aguenta firma, vai ser rápido.
Seria, se a roda gigante não tivesse quebrado comigo lá em cima.
No topo do brinquedo.
No auge da vontade.

Quando olhava para baixo, só via meu xixi caindo em cascata, molhando as outras crianças que se espremiam com nojo, enquanto o líquido amarelo pingava quente até o terceiro banco abaixo de mim.

Foram uns vinte minutos de vexame, quando finalmente consertaram o brinquedo e pude descer.
Ensopada, e humilhada para sempre.
Meu pai que me esperava na saída, me pegou no colo e me levou para bem longe, enquanto eu chorava de vergonha.
-Isso acontece, calma.
Mas eu sabia que não era verdade.

Xixi na cama sim era normal, agora xixi na roda gigante era só comigo.

Um dia, acordei amargurada, e disse para minha mãe:
-A gente tem que ir embora daqui.
-Para onde?
-Para São Paulo, lá ninguém vai me reconhecer.
-Até parece que a família inteira vai mudar de cidade só por causa de um simples xixi, esquece isso, vai brincar.

Brincar? Eu não tinha mais cabeça.
Amadureci com o sofrimento.
Neurotiquinha que era, pensava nisso vinte e quatro horas por dia.
Não era um simples xixi.
Era minha desmoralização completa.
Se ela não queria me levar embora, só me restava fugir.

Arrumei minha malinha com tudo que precisava para começar uma nova vida longe dessas lembranças.
Me despedi do quarto e beijei cada brinquedo.

“Vou sentir saudades, fiquem bem, um dia eu venho buscar vocês”.

Lembrando disso agora, queria poder voltar no tempo, entrar naquele quarto, abraçar essa menina, e dizer para ela:

-Ei, vai ficar tudo bem, enxuga essas lágrimas, daqui muitos anos todo mundo vai rir dessa história até você.

Tudo passa.

E passou mesmo.
Não fugi coisa nenhuma, e hoje conto essa história para dar paz a essa criança atormentada, que ainda mora dentro de mim.

Mas se tem uma coisa boa nessa minha minitragédia foi tudo isso ter acontecido na década de oitenta.
Ninguém filmou.
Ninguém fotografou.
Não viralizou.
Não virei um Gif animado, nem um vídeo no YouTube, com um milhão de visualizações.

Tenho pena das crianças de hoje, elas não têm a mesma sorte.

Suas vidinhas são filmadas e fotografada incansavelmente, e circulam por aí em fotos, vídeos e Gifs “supostamente” engraçados.

A menina da roda gigante queria abraçar todas essas crianças, e dizer para elas que tudo passa.
Mesmo ficando para sempre na internet.

A louca da tapioca

Tudo que mais quero quando estou de férias é dormir.
Dormir muito, sem hora para acordar.
Até meio-dia ou mais, se possível.
E depois tomar o extraordinário café da manhã na pousada.
-Que começa que horas?
-Sete da manhã.
-E vai até?
-Nove e meia.
-Queeeeeeee?
-Ué, mas não é na Bahia que todo mundo acorda tarde?
Que palhaçada que é essa?
Comigo não.
totalmente decidido.
Não vou tomar esse café.
Não preciso de tapioca de todos os sabores que existem no mundo.
Preciso descansar.
Mas táqueopariu, todos os sabores mesmo?
Era o que dizia a placa na entrada.
Lembro que em São Paulo é só pão com margarina e café preto (e quando dá).
Minha paranoia começa a me chantagear.
-Deve ter até tapioca de Nutella.
-Isso não existe nem em São Paulo.
-Desce lá para ver, então.
Viro para o lado, e tento me concentrar no sono.
Dorme. Dorme. Dorme.
-Deve ter cuscuz (com leite de coco para regar), cará (cozido no vapor de água do mar), banana da terra (com cacau e canela).
Nunca é só uma coisa na Bahia.
-Suco de graviola (com castanha pisada na floresta), umbu (com mel de abelha virgem), cajá (com gengibre colhido na hora).
Não vou entregar os pontos.
Sou forte.
Dorme. Dorme. Dorme.
Cochilo.
Sonho que estou experimentando tapioca de Nutella regada com leite de coco trazido da Índia pelos portugueses no descobrimento.
Não sei se consigo dormir mais.
Poderia acordar rapidinho, comer, e voltar para cama.
Mas a minha pousada fica bem no alto de uma colina, se acordar, acordou.
É comer ou dormir, os dois não dá.
Talvez sentir o ar fresco da manhã me faça bem.
(Foda-se o ar da manhã eu quero é tapioca)
Lembro da minha vida miserável em São Paulo.
(Pão com margarina e café preto, quando dá).
Visto a minha roupa, e saio em disparada.
Aposto que nem tem essa tapioca maldita.
Mas vou descer, nem que seja para reclamar.
-Ah, não tem? Pois deveriam fazer, já que na placa dizia todos os sabores do mundo.
Já chego louca:
-Cadê a tapioca de Nutella regada com leite de coco trazido da Índia pelos portugueses no descobrimento? Me dá três agora.
E tinha mesmo.
-Amanhã teremos mais sabores especiais, ainda diz a baiana fofa.
Táqueopariu.
-Que sabores tem amanhã?
Pergunto tentando parecer normal.
Quem foi que inventou que os baianos acordam tarde?
E foi assim que saí de São Paulo para levantar cedo todo dia.
Na Bahia.

 

Carta de amor para Audrey Hepburn de Lacoste City

 

Dia desses minha mãe me ligou desesperada, até assustei.
-Que foi?
-Você não vai acreditar.
-Queeeeeeeee? 
(Sempre acho que morreu alguém).
-Sua tia vai fazer XX anos.
-Qual problema?
-Ela não pode ter XX anos né?
-Ué? Pode.
-Mas se ela vai fazer XX anos, significa…
Perdão mundo, não sou de usar reticências mas esse caso aqui exige.
-Sim, significa que você vai fazer XX+2. Tive que dar a notícia.
Silêncio total.
-Mãe? Tá viva? Você é apenas dois anos mais velha. Quase nada de diferença, vamos parar de drama.
Ela continuou em silêncio para processar a informação.
E eu também.
Para encurtar a conversa eu disse que ela tava linda, e que bobagem ficar se preocupando com isso. 
Ela falou que não era bobagem coisa nenhuma, e me proibiu de falar sobre a idade dela, principalmente em textos do Facebook. 
-Estamos entendidas?  
– Estamos.
Concordei e desligamos.
Mas depois fiquei pensando que talvez ela tivesse razão.Não podia ser.
Só lembro dela linda com óculos enormes, calça boca de sino ou botas até o joelho. Sempre com aquele cabelo alto para cima, com franja, no mais puro estilo Audrey Hepburn. 
Lembro do Kajal que eu via ela passando nos olhos enquanto pensava: isso que é mulher! 
Não via a hora de crescer para poder usar aquilo também. Queria ter aqueles olhos delineados com Kajal da Avon. 
Lembro dela com um chapéu vermelho. Quem usaria um chapéu numa cidade do interior nos anos 70? E não era um chapéu qualquer, era vermelho e de veludo. Só minha mãe que era estilo puro.
Lembro dela correndo, para cima e para baixo, dando conta de uma casa, de um marido, de três filhos e ainda cuidando do meu vô e da minha vó velhinhos. 
Lembro dela atrasada dando sopa Knorr para gente de almoço (alô, conselho tutelar?), também lembro dela fazendo contas, e mais contas, e nunca deixando de comprar tudo que eu precisava (e queria).
Lembro da rapidez com que ela fazia os penteados mais lindos no meu cabelo antes de ir para escola. Olho cada foto de criança minha e penso: quanto amor, cuidado e criatividade impresso em cada fio da minha cabeça. Lembro dela presente em todos as reuniões, apresentações e do orgulho que ela sentia com cada conquista banal minha. 
Essa mulher de chapéu vermelho, óculos maravilhosos, calça boca de sino, olhos pintados com Kajal, não pode mesmo ter essa idade. 
O espanto dela era real. 
E agora era meu também. 
Quando foi que isso aconteceu? 
Onde eu estava esses anos todos que não percebi?
Minha mãe é uma máquina de juventude, vigor, disposição e algumas dores na coluna. 
Liguei de volta.
– Acho que você tem razão, erraram sua idade. 
-Acho que não. É isso mesmo.
Rimos, mas depois eu chorei.
Os pais não deveriam envelhecer jamais. 
Tinha que ser proibido.
Como se lida com um negócio desses? Eu não sei.
Feliz dia das mães pra minha eterna Audrey, você nunca vai deixar de ter 27 anos pra mim. 
Mesmo que eles estejam invertidos agora.

Minhas sogras e o Woody Allen

 

Se vocês acham a vida de vocês  complicada, imaginem a minha.

No lugar de uma sogra tradicional,  tenho duas.
Uma judia polonesa.

A outra  judia alemã.
Ambas psiquiatras.

E amigas. Já até dividiram até um ap no passado.
Puxado, não?
Mas se vocês acham que a minha vida é complicada, imagina a do Woody Allen, onde a sogra e a ex-mulher são a mesma pessoa.
Sempre tem alguém numa situação pior que a nossa.
Basta olhar pro lado.
Ou pra NY, nesse caso.

Para sempre a filha de dois leoninos.

Me amem, ok?
Depois que o Facebook inventou o botão do amei, o like já não me basta mais.
Agora quando recebo “apenas” um curtir eu penso:
-O que eu fiz de errado?
-Não está legal?
-Por que não me deram um amei?
Mas não me julguem antes de conhecer meu drama infantil.
Sou a filha mais velha, tive sempre que sobreviver entre o caçula (mimadinho) e a irmã do meio (irmã do meio já é um adjetivo).
Eles eram os amados e eu, apenas curtida.
Ate aí tudo bem, porque irmão mais velho só se fode mesmo.
Só que nunca para por aí.
Deus foi minucioso em cada linha do meu destino.
Para piorar tudo, me deu um pai e uma mãe leoninos.
E um mais leonino que o outro.
Tá todo mundo ciente que leão é o rei da Selva, e não há nada no mundo que importe mais do que eles?
Portanto, não havia o menor espaço para brilhar nessa família.
Embora eu nunca tenha deixado de tentar.
-Mãe, tirei dez em redação.
-Legal, você não sabe o que fulana me disse hoje. E contava tudo que alguém tinha falado de incrível (sobre ela) reduzindo meu dez em redação a poeira do abajur que nem existia.
E eu ficava ali pensando:
-O que fiz de errado?
-Por que ela não amou o que eu contei?
Tentava com meu pai:
-Fiz uma cesta incrível no basquete hoje.
-Que ótimo, você sabe que eu fui um dos criadores do Basquete né? E contava sobre a trajetória brilhante no esporte (dele) jogando minha cesta como pó para baixo do tapete persa que jamais tivemos.
E eu ficava ali pensando:
-O que fiz de errado?
-Por que ela não amou o que eu contei?
Naquela época eu não entendia nada sobre signos e muito menos o que significava ser filha de dois leoninos.
Achava que o problema era eu.E passei a vida em busca de um palco para chamar de meu.
Certeza que minha mãe vai me ligar daqui a pouco (super ofendida) falando que meu pai ficou muito chateado com o que escrevi.
E que absurdo! porque eles foram os melhores pais do mundo e fizeram tudo que podiam.
Até mais do que podiam, que fique claro, pois eles são os melhores pais que já pisaram nesse planeta. Chorando vou me desculpar e implorar perdão.
Vou falar que exagerei e terminar apagando esse texto de tanta culpa que vou sentir.
Agora vocês já sabem a importância que o botão do amei tem na minha vida. Me amem mais, ok?
Um like nunca vai me bastar.
E quando eu morrer escrevam na minha lápide:
Para sempre a filha de dois leoninos.