Adeus, Inês.

Tive que demitir a Inês, minha faxineira.
Depois de muitos anos, ver outra pessoa limpando o apartamento hoje de manhã partiu meu coração.
Nunca mais reclamar porque ela estragou uma blusa, não limpou onde pedi e principalmente, nunca mais dar uma “stalkeada” na vida do meu ex, vai ser bem duro.
Ela trabalhava na minha casa e na dele, portanto uma mina de informações.
Segunda lá em casa, terça na dele, quarta lá em casa, quinta na dele.
Sexta não sei onde ela ia.
-Tem coisas dela lá? Ela é bonita? Inês, fala a verdade para mim.
– Você é bem mais bonita que ela.
– Jura?
– Juro.
-Se ele perguntar de mim, você diz que eu morri e meu enterro foi semana passada…
-Eu não vou falar isso.
-Tá! Mas faz um favor enorme? Leva essas coisas e entrega para ele.
-Ele também quer te mandar umas coisas que estão lá.
-Não precisa, pode jogar tudo … peraí, tem um livro que eu quero de volta sim, não vou jogar o Complexo de Portnoy fora.
Philip Roth não tem nada a ver com essa palhaçada.
-Eu pego para você.
-E se ele insistir em perguntar, você diz que eu casei ontem. Uma festa incrível para 1000 convidados.
-Não vou falar nada disso, tá?
-Tá. Ele que se foda, não precisa falar nada. Só troca o lençol para mim, coloca aquele listradinho de azul e passa o aromatizador de alecrim da Lelis Blanc pela casa toda.
E agora nunca mais a Inês.
De manhã quando abri a porta apareceu a Ângela, com a saia no pé e uma Bíblia cor-de-rosa debaixo do braço.
Como se anunciasse a paz.