Bom dia, Advil

Abro os olhos e sinto lenhadores rachando minha cabeça com aquele velho machado sem corte, sensação também conhecida como ressaca.
-Meu Deus, não posso me atrasar.
Tento me arrumar o mais rápido possível.
Sei quando o dia vai ser uma bosta quando não acerto o traço do delineador de primeira.
Erro três vezes.
Mando mensagem para minha diretora.
– Tô parada na Faria Lima.
Na verdade ainda tô em casa limpando o delineador borrado.
Ela responde com um “OK” frio.
Entro no táxi e imploro:
– Moço, peloamordedeus, não posso me atrasar.
-Então você deveria ter saído mais cedo.

Queria responder mas minha ressaca tá tão desumana que evito me mexer.
O filho da mãe tem razão.

Tentei sair mais cedo, mas voltei porque esqueci o celular, depois esqueci o carregador, depois voltei para ter certeza que eu tinha desligado o ferro, depois lembrei que nem usei o ferro, mas aí já tinha voltado e aproveitei para tomar um remédio.
Só encontrei um Doril.
Achei tão anos 90 tomar Doril.
Resolvi revirar a casa atrás de um Advil, muito mais contemporâneo.
Tenho uma obsessão com esse remédio, tanto que, sempre escolho um esmalte que lembre o tom.
Alô Risqué! olha a oportunidade para hipocondríacas.
Vermelho Advil. Verde Naldecon. Black Rivotril.

O taxista erra a bosta do caminho.
Queria avisar, mas não consigo me mexer.
Já tá perdido esse dia.

Nessa hora percebo que alguma coisa estranha está acontecendo e não é apenas ressaca. Minha mão tá gel…
Preciso de um elástico de cabelo urgente.
Sempre que tô começando a ter uma crise pânico eu preciso de um elástico de cabelo.
É a senha para o inferno.
Oito letras: e-l-á-s-t-i-c-o! com acento.
Não acho e entrego meu ticket de embarque para o capeta que me recebe sorrindo.
– Bom dia, querida.

Mas não dessa vez.
Não vou de jeito nenhum.
Preciso do elástico para tentar me salvar.
Jogo tudo que tem dentro da minha bolsa no banco do táxi.
E pode pedir qualquer coisa que tem nessa bolsa, menos o que preciso.

Continuo procurando, sem sucesso.
Penso em pedir para o taxista.
-Moço você tem um elástico de cabelo aí?
Penso em sair correndo do táxi pegar umas pedras, botar no bolso e me atirar no Tietê.
Ir afogando lentamente.
Lembro que não sou Vírginia Woolf e desisto.
-Não vou, nem adianta.
-Vai ser rapidinho, querida.
-Não, não e não.
Entramos num duelo secreto.
-Quanto mais você relutar, pior para você.
– Por favor, seu capeta, tô muito atrasada, me livra dessa.
– Vem logo.
– Não.
– Vem.
– Não vou.
– Não brinca comigo.
– Tá… tô indo.
Me entrego.
Não de verdade. Blefo.
Sei que ele não gosta de quem se entrega.
Desisto estrategicamente.
Ele fica puto e não me aceita.
-Assim não tem graça.
E me devolve, sem eu nem ter ido.
Sabia.

Olho para janela e vejo um sol lindo torrando a terça-feira.
Sinto a dor de cabeça melhorando.

Vale a pena lutar. Vale a pena procurar um Advil.

Vale até, negociar com o capeta, se preciso for.