Francisco, meu herói

Fui para o Rio fazer um curso e uma amiga me emprestou o apartamento que estava vazio nesse fim de semana.
Eu só teria que pegar a chave na portaria, subir, abrir a porta e entrar.
Parecia bem simples.
Mas aí vem a vida com a sua foice.
Subi com a mala, tentei várias vezes abrir a porta, que claro, não abriu.
Desci com a chave na mão para avisar o porteiro que não estava conseguindo entrar.
A chave caiu.
Ela poderia apenas ter caído no chão elevador.
Mas onde ela caiu?
No poço.
P-O-Ç-O.
Fiquei catatônica olhando pro buraco.
Decidindo se entrava num desespero controlado ou ia direto pro choro compulsivo.
Francisco, o porteiro, percebendo a movimentação veio ver o que estava acontecendo.
Quando contei, ele também não conseguia acreditar.
Agora éramos nos dois não acreditando juntos.
-O que eu vou fazer? Não tenho outra casa para ir. Não posso arrombar o apartamento da minha amiga. Não tem como entrar no buraco para pegar.
-Calma. Ele disse e saiu.
Sentei na mala e fiquei sozinha no subsolo esperando que a chave se arrependesse e voltasse para minha mão. Um milagre, tipo o de Lázaro.
Nisso vejo o Francisco voltando com uma para pá, totalmente decidido.
-Vou tirar esta chave daí para você.
-Não dá! Esse elevador é muito antigo, pode cair na sua cabeça.
-Segura essa porta para mim.
Segurei com toda força do mundo.
Ele deitou no chão e ficou com a metade do corpo dentro do poço tateando cada pedacinho do chão com a pá.
Eu tentava ajudar iluminando com a luz do celular, mas não podia ir muito longe porque ou derrubaria o aparelho ou soltaria a porta, e então o elevador se espatifaria decepando a cabeça dele na minha frente.
Fiquei imaginando o corpo sendo cortado pela metade e sangue jorrando para todo lado.
Meu Deus.
Como eu ia dizer para família dele que a culpa foi minha?
– Então pessoal, negócio é o seguinte, matei o pai de vocês mas foi sem querer.
Imaginei a viúva e os 5 filhos do Francisco me condenando para sempre.
Sem pai, eles teriam que parar de estudar para vender doce no sinal.
Só vim fazer um curso no Rio e acabei com o futuro de cinco crianças.
E ainda vou perder a festa na casa do Xampu.
Nunca mais vou pisar nessa cidade.
Nunca mais vou entrar num elevador.
Vou trabalhar para pagar terapia.
Ou pior, talvez seja até presa.
Nisso Francisco levanta e diz.
-Vou ter que entrar no poço, tem jeito não.
-Não, por favor, esquece essa chave, vou para um hotel.
– Segura essa porta com força.
Decidido pegou uma escada e entrou.
Comecei a rezar imaginando a notícia nos jornais de Copacabana.
“Loka derruba a chave no poço e porteiro morre esmagado ao tentar recuperar”.
Quarenta minutos depois, enquanto eu esperava de olhos fechados o estrondo do elevador que amassaria o Francisco e acabaria com a minha vida para sempre escutei um grito:
– Conseguuuuui.
Sujo, suado e descabelado, ele saiu do poço com a chave na mão.
– Viu, para tudo tem jeito, não pode se desesperar.
Não aguentei e dei um abraço muito apertado.
Por pouco não dei um beijo na boca.
Conheci muita gente incrível esse fim de semana.
Pessoas descoladas,inteligentes, cultas, famosas, mas se tem alguém que vou lembrar para sempre é do Francisco.
Sujo, suado e descabelado.
Meu herói.