O exemplo

Esses dias fiz uma viagem de ônibus que durou umas cinco horas e para ajudar tinha uma criança do meu lado, o Pedro.

Com seu macacão azul e uma carinha que dizia “vou causar”, embarcamos.
A mãe dele estava com a vó e a irmã mais nova no banco de trás.

E ele sozinho ali comigo.

Não parava um minuto.
Cantava. Pulava. Causava.

E eu tentando ler.
Depois de horas enchendo meu saco, ele cansou e disse:
-Mãe, quero ir aí com você.
Ela respondeu:
-Fica quieto aí, aqui não tem lugar.
Com beicinho ele falou:
-Mas minha irmã ta aí com você.
-Sua irmã é mais nova e não pode ficar sozinha.

Mais beicinho.
-Você é maior tem que dar o exemplo.
O menino tinha uns 5 anos.
Me deu uma raiva.
Eu que já tinha me preparado para entrar em guerra com ele durante a viagem, desisti e senti a maior vontade de pegá-lo no colo para dizer:

– Você não tem que dar exemplo coisa nenhuma, seja você!

Ser o irmão mais velho é isso…
Carregar esse fardo de dar exemplo para as outras pestes que tiveram a sorte de vir depois.

Nota baixa nem pensar, você tem que dar o exemplo!
Quebrar um brinquedo jamais, você tem que dar o exemplo!
Chafurdar na lama nunca, você tem que dar o exemplo!

Eu tinha vontade mergulhar na lama, tirar zero em tudo e arremessar todos os brinquedos na parede.

Mas não podia.

Eu era um exemplo pro mundo.
Tudo que eu fizesse de errado seria copiado e eu seria a grande culpada por desgraçar o futuro de duas crianças fofas.

Mas houve uma vez um fato que superou tudo que tinha acontecido até então.
Passeio em família para o Playcenter.

Lembro de ter olhado a Montanha Russa e achado a coisa mais maravilhosa e assustadora do mundo.

Mas na fila eu já comecei a desconfiar que eu ia sobrar.
Acertei.

Meu pai foi com a minha irmã e minha mãe foi com meu irmão.
E eu?
Bem, eu era mais velha, então nada mais natural que eu fosse sozinha.
SOZINHA.
Só que eu tinha uns sete anos.
-Tenho que ser forte.
Por dentro eu tava tremendo, mas nunca daria o braço a torcer.
-Cuidem aí das crianças, sou corajosa.
Meu caráter foi formado ali no vai e vem daquela montanha.
E naquele dia tomei uma decisão.
Eu tinha que dar um jeito de matar ou doar meus irmãos.
Ninguém precisava desses dois para nada.
Não havia necessidade de mais crianças.
Eu era suficiente.
Arquitetei vários planos…
Ia passear com meu irmão e pensava: e se eu esquecer ele aqui?
Minha mãe vai chorar um pouquinho, mas depois nem vai lembrar.
Mas ele era tão fofo, tão gordinho e com cabelo moicano…
Dava dó nunca mais vê-lo.
Acabava desistindo.
Minha irmã também era tão bonitinha e de vez em quando eu tinha que ter alguém para trocar papéis de carta, brincar de boneca e para fazer bullying com o cabelo moicano do meu irmão.
Precisar deles eu não precisava.
Mas a gente se apega.
E vai amando essas pestes.
Quando não é guerra é parceria.
Quando não é dividir o quarto é dividir a vida.
Por isso, fui desistindo ao poucos do plano de me livrar dos dois.
Eu precisava deles sim.
Hoje, são as únicas testemunhas de uma infância de glórias que vivi, para dar o exemplo.

Vem cá, Pedro! Senta aqui no meu colo.

Vou te acompanhar nessa viagem para você não ir sozinho.