Pogobol

Hoje é Dia dos Pais e tá todo mundo dizendo que tem o melhor pai do mundo.
Eu também vou dizer.

Mas o meu é mesmo.
Vou contar uma história para não deixar dúvidas.
22 de dezembro de 1987.
Auge do Pogobol, o brinquedo de maior sucesso da Estrela.
Com muito custo, sacríficio e chantagem consigo o meu.
Roxo com verde, pura ostentação.
Três dias para o Natal.
Não aguento esperar e começo a manipular minha mãe para conseguir abrir antes.
Consigo.
Vou para rua com o meu Pogobol e empresto para geral pular um pouquinho.
Viro pop.
As crianças imploram para brincar.

Mando fazer fila.

Me sinto a dona do mundo.
Dois dias para o Natal.
Durmo e acordo com a fama.
Vivo dias de glória.
Crianças da rua de cima, da rua de baixo e de bairros vizinhos aparecem para conhecer o meu brinquedo.
Minhã mãe avisa:
“Senegócio vai estragar antes do Natal e eu não vou comprar outro”.
Todo mundo aponta para mim: ela é a dona.
Estou no auge da minha popularidade infantil.
Algumas choram arrependidas:
“Devia ter pedido isso”.
Tarde demais, os presentes já estão comprados e embrulhados.
Continuamos a pular.
Minha mãe continua a avisar:
Se isso estragar, vai ficar sem presente amanhã.
Praga de mãe pega.
O Pogobol fura.
Meu mundo desaba.
As crianças aos poucos desaparecem.
Cada um vai cuidar da sua vida e fico com a minha tristeza olhando para o brinquedo estragado.
A mágoa me corrompe.
“Não devia ter emprestado para ninguém”.
Imploro para minha mãe comprar outro.
Ela alega não ter dinheiro e aproveita para dizer:
EU AVISEI.
Choro o choro mais triste do mundo.
Vou ser a única sem presente na noite de Natal.
24 de dezembro.
Tenho a brilhante idéia de mandar consertar.
Peço ajuda para o meu pai, que vai comigo em todas as borracharias da cidade ( mesmo sabendo que não vai ter conserto).
De longe, vejo ele conversando com cada borracheiro.
Mostrando o furo.
Agradecendo e voltando para me falar:
“Infelizmente não deu”.
Mas vamos na próxima.

E na próxima.

E na próxima.
Vamos em todas.
Até não restar mais nenhuma.
Tentamos de tudo.
Em vão.
Chega a noite de natal.
O sonho do Pogobol acaba definitivamente…
Mas lembrar do meu pai, de borracharia em borracharia, tentando não me deixar sem presente foi o melhor dos presentes.

Pena que naquele dia eu ainda não sabia disso.