Saí para comprar um fogão

Voltei com um casaquinho de paetês. Sempre sonhei em ser aquela mulher das comédias românticas americanas que sai do trabalho correndo no final do dia, passa no mercado, chega em casa cheia de sacolas com produtos importados, azeites trufados e prepara um jantar delicioso para os amigos.
– Que delícia, como você fez isso tão rápido?
– Tá de comer de joelhos.
– Cozinhar é olho. Responderia humilde sorrindo.
Só que essa cena aí nunca rolou.
O que escuto muito é:
– Meu Deus. Como você conseguiu fazer isso?
Mas não pelo lado positivo da coisa.
Esses dias resolvi cozinhar feijão.
Não é que não deu certo.
Deu errado num grau que um amigo rolando de rir disse:
– Se jogar granulado, todo mundo vai achar que é brigadeiro.
– Não chora, vamos servir como sobremesa.
Depois disso comecei a aceitar que cozinhar era um sonho impossível para as minhas capacidades e acertar Miojo já virou um grande motivo para comemorar.
Mas isso ficou definitivamente claro quando um dia desses,
saí para comprar um fogão e voltei com o casaquinho de paetês.
Mas não era um casaquinho qualquer.
Era um rosa raro e envelhecido.
E a linha de absolvição que segui foi:
– E se eu nunca mais achar um dessa cor?
Me convenço facilmente quando convém.
Depois acabei comprando um fogão que ficou mais de oito meses na caixa, o que me levou a crer que tomei a decisão mais acertada na escolha entre uma coisa e outra.
Jamais serei aquela mulher do primeiro parágrafo.
Mas o talento que Deus não dá o restaurante entrega.
Mais vale um casaquinho lindo de paetê no corpo do que um fogão de enfeite na cozinha.