Vamos marcar?

Hoje acordei pensando nas cem coisas que marquei essa semana e vou ter que desmarcar.
Liguei para uma amiga e avisei:
-Aquele almoço que a gente combinou não vai rolar.
– Nossa, nem lembrava.
Tá desse jeito o negócio.
Eu preocupada e ela nem lembrava.
Outro dia fui numa despedida de um amigo.
Tava morta de preguiça, mas não achei uma boa desculpa a tempo, então tive que ir.
Quando vi tinha marcado mais dois almoços e uns três aniversários.
Saí com mais 5 coisas.
Sou muito mole. Sou.
Era só falar não? Era.
Mas não consigo. Ninguém consegue.
Essa coisa é igual areia movediça.
A gente vai se afundando.
“Vamos marcar?” virou uma saudação.
Uma espécie de “oi” da nossa época.
Você olha para pessoa a pessoa olha para você e pá acontece.
E assim vai.
Em 2% dos casos existe uma boa intenção, às vezes a gente acha que vai conseguir.
Que vamos sair cedo.
Que o trânsito vai ajudar.
Que a preguiça vai dar trégua.
Mas em 98% dos casos agimos como mentirosos compulsivos, coagidos sociais, porque a gente marca mesmo sabendo que não vai cumprir.
Depois é só desmarcar.
Um whatsapp com uma mentirinha e tá tudo resolvido:
Tô preso numa reunião, tenho dentista, meu cachorro passou mal.
A pessoa do outro lado sabe que nem cachorro você tem, mas nem questiona porque na verdade ela também tava pensando na desculpa que ia dar.
Ninguém tá verdadeiramente interessado.
Mas não é de hoje.
Ouvi dizer que foi super complicado para Jesus reunir os 12 apóstolos para Santa Ceia porque toda semana alguém desmarcava.
“Vamos marcar a última ceia?”
-Bora lá!
-Tô dentro.
– Ih hoje não posso, marquei de sair com a Madalena.
Judas, sabendo que sua batata tava assando foi um que desmarcou várias vezes.
Foram anos para conseguir reunir toda galera e ‪#‎partirsantaceia‬.
E desde então o negócio só piorou.
Nesse minuto, enquanto estou aqui escrevendo, umas trezentas mil pessoas estão marcando alguma coisa que vão desmarcar.
Não sei para vocês, mas para mim deu.
Cansei dessa vida.
Não quero mais ser esse tipo de gente.
A partir de agora só vou marcar o que der para cumprir.
-Vamos marcar?
-Não vamos.
-Ou vamos, se for de verdade.
Caso contrário…
Deixa acontecer naturalmente.
Igual a letra do pagode.
Tudo isso aí é para dizer que não vou em nada que marquei essa semana.
Beijo e tá tudo desmarcado.