Fotos para usar, caso eu desapareça

Quando abro os sites de notícias e vejo a foto de pessoas que estão desaparecidas, fico analisando a foto que colocaram da pessoa.

Um dos maiores medos que tenho na vida não é desaparecer, mas que escolham uma foto feia para me procurar, caso aconteça.

Na correria pessoal acaba pegando qualquer uma para divulgar.

Por favor, não façam isso.

Documento, por exemplo, é jogo baixo.

A foto do meu passaporte, não sou eu.

Estava com cabelo sujo, gripe e sono.

Como sair bem numa hora dessas?

Mas por nove anos longos anos serei a pessoa daquela foto.

Toda vez que fizer uma viagem, voltarei a ser feia como naquele dia.

Não acho justo.

Mas como não viajo muito, mantenho essa minha versão guardada numa gaveta dentro de um envelope.

Quase nunca nos encontramos.

A foto do perfil do Facebook é outra que também não sou exatamente eu.

Estava na praia, bronzeada, feliz e ainda coloquei 5 filtros do Instagram para ajudar.

Fiquei muito bem, claro.

Mas sou eu?

Também não.

Me sinto meio enganadora, mas não há virgem naquele bordel.

Esses dias achei uma foto de quando eu tinha 17 anos.

Maior empolgação. Nossa, tô linda! Vou postar.

Aos dezessete todo mundo tem a boca formato de coração, maçãs altas e a cara corada com blush natural da vida.

Tava impresso ali a saúde e a vitalidade de quem comia cinco coxinhas no recreio e ainda tinha a barriga chapada.

Saudades dessa filha da mãe que um dia fui.

Meu inbox pipocou de ex elogiando.

Quando vi estava com ódio de mim aos 17.

Ciúme, inveja e recalque.

Não sou mais você, embora já tenha sido.

Rasguei a foto em mil pedacinhos.

Agora chega de elogiar essa vaca.

As três, apenas impostoras querendo se passar por mim.

A bronzeada, a gripada e a jovem corada.

Nenhuma me representa.

Para não ter erro, criei uma pasta no Mac com o titulo “fotos para usar, caso eu desapareça”.

Separei ótimas opções reais de mim.

Procurem lá.

Levo muito a sério minhas paranóias.