Carta de amor para Audrey Hepburn de Lacoste City

 

Dia desses minha mãe me ligou desesperada, até assustei.
-Que foi?
-Você não vai acreditar.
-Queeeeeeeee? 
(Sempre acho que morreu alguém).
-Sua tia vai fazer XX anos.
-Qual problema?
-Ela não pode ter XX anos né?
-Ué? Pode.
-Mas se ela vai fazer XX anos, significa…
Perdão mundo, não sou de usar reticências mas esse caso aqui exige.
-Sim, significa que você vai fazer XX+2. Tive que dar a notícia.
Silêncio total.
-Mãe? Tá viva? Você é apenas dois anos mais velha. Quase nada de diferença, vamos parar de drama.
Ela continuou em silêncio para processar a informação.
E eu também.
Para encurtar a conversa eu disse que ela tava linda, e que bobagem ficar se preocupando com isso. 
Ela falou que não era bobagem coisa nenhuma, e me proibiu de falar sobre a idade dela, principalmente em textos do Facebook. 
-Estamos entendidas?  
– Estamos.
Concordei e desligamos.
Mas depois fiquei pensando que talvez ela tivesse razão.Não podia ser.
Só lembro dela linda com óculos enormes, calça boca de sino ou botas até o joelho. Sempre com aquele cabelo alto para cima, com franja, no mais puro estilo Audrey Hepburn. 
Lembro do Kajal que eu via ela passando nos olhos enquanto pensava: isso que é mulher! 
Não via a hora de crescer para poder usar aquilo também. Queria ter aqueles olhos delineados com Kajal da Avon. 
Lembro dela com um chapéu vermelho. Quem usaria um chapéu numa cidade do interior nos anos 70? E não era um chapéu qualquer, era vermelho e de veludo. Só minha mãe que era estilo puro.
Lembro dela correndo, para cima e para baixo, dando conta de uma casa, de um marido, de três filhos e ainda cuidando do meu vô e da minha vó velhinhos. 
Lembro dela atrasada dando sopa Knorr para gente de almoço (alô, conselho tutelar?), também lembro dela fazendo contas, e mais contas, e nunca deixando de comprar tudo que eu precisava (e queria).
Lembro da rapidez com que ela fazia os penteados mais lindos no meu cabelo antes de ir para escola. Olho cada foto de criança minha e penso: quanto amor, cuidado e criatividade impresso em cada fio da minha cabeça. Lembro dela presente em todos as reuniões, apresentações e do orgulho que ela sentia com cada conquista banal minha. 
Essa mulher de chapéu vermelho, óculos maravilhosos, calça boca de sino, olhos pintados com Kajal, não pode mesmo ter essa idade. 
O espanto dela era real. 
E agora era meu também. 
Quando foi que isso aconteceu? 
Onde eu estava esses anos todos que não percebi?
Minha mãe é uma máquina de juventude, vigor, disposição e algumas dores na coluna. 
Liguei de volta.
– Acho que você tem razão, erraram sua idade. 
-Acho que não. É isso mesmo.
Rimos, mas depois eu chorei.
Os pais não deveriam envelhecer jamais. 
Tinha que ser proibido.
Como se lida com um negócio desses? Eu não sei.
Feliz dia das mães pra minha eterna Audrey, você nunca vai deixar de ter 27 anos pra mim. 
Mesmo que eles estejam invertidos agora.