Amiga, cê tá bem?

Eu tive dois grandes sonhos de infância que não se realizaram.
Um deles era ter uma Mobilete vermelha.
O outro era quebrar um braço, uma perna, um pé, uma mão, qualquer coisa que me fizesse engessar alguma parte do corpo.
Como eu queria chegar no colégio e ouvir todo mundo comentando:
-Meu Deus, o que aconteceu?
-Que dor você deve ter sentido.
-Como foi isso?
A criança que chegava com gesso era automaticamente lançada ao posto de celebridade da semana, e até do mês, caso ninguém mais se machucasse no período.
Valia a pena cair de um pé de goiaba para alcançar essa glória.
E depois, ainda vinha a melhor parte: as mensagens eternizadas pela Bic no gesso branquinho.
Eu sonhava com esse momento, que nunca aconteceu.
Quebrei apenas um único dedo e só enfaixaram.
Lembro até de ter feito uma cena no pronto socorro:
doendo muito, engessa peloamordedeus!
Não só enfaixaram, como ainda colocaram uma tala com palito de sorvete para humilhar bem, virei motivo de piada.
-Alá que tonta, quebrou o dedo.
Hoje quando vejo essas pessoas fazendo check-in em hospital, ou colocando fotos filtradas enquanto tomam soro, primeiro eu tenho vontade de bater, depois sinto compaixão.
Sei que são apenas crianças que um dia sonharam em ter o braço engessado e seguem pedindo a atenção.
Fulano fez check-in em Albert Einstein.
Fulana fez check-in em Sírio Libanês.
Notem que check-in em SUS ninguém dá.
É sempre em hospital ostentação.
“Tô mal, mas tô arrasando”.
Em seguida, pode esperar que vem a famosa foto do braço esticado com legenda triste e um emoji chateado.
E começam a chegar as condolências virtuais:
Amiga, ta bem?
-O que houve?
-Precisando de algo estamos aqui.
-Melhoras, vai ficar tudo bem!
Curiosa que sou, leio os comentários para ver se tem alguma pista do que a fulana(o) tem.
Mas nunca é grave.
Se fosse, não tinha fotinho filtrada no insta.
No fundo, ainda somos aquelas crianças esperando o amigo escrever no nosso gesso imaginário.
Saímos da quinta série direto para as redes sociais.
Não estamos bem, mas vamos melhorar.
Quem sabe um dia a gente cresce?