A menina que fez xixi na roda gigante

Naquela época, ninguém nunca tinha ouvido falar em bullying, mas sou testemunha que ele já existia, e passei anos sofrendo seus efeitos.

A menina da roda gigante era eu.

Fui apontada na rua, na escola, no mercado, no clube, nas festinhas.

Em todo lugar que eu ia era um inferno:
-Alá a do xixi!
-Você é a que fez xixi, né?
-Não é ela que fez xixi na roda gigante?

Só faltava dar autógrafo e tirar selfie com desconhecidos.
Virei uma espécie de celebridade ao contrário com sete anos.

Era para ser ter sido só um passeio normal com a família no domingo.
Na fila, já avisei minha mãe:
-Quero fazer xixi.
-Agora não dá mais.
-Não vou segurar.
-Aguenta firma, vai ser rápido.
Seria, se a roda gigante não tivesse quebrado comigo lá em cima.
No topo do brinquedo.
No auge da vontade.

Quando olhava para baixo, só via meu xixi caindo em cascata, molhando as outras crianças que se espremiam com nojo, enquanto o líquido amarelo pingava quente até o terceiro banco abaixo de mim.

Foram uns vinte minutos de vexame, quando finalmente consertaram o brinquedo e pude descer.
Ensopada, e humilhada para sempre.
Meu pai que me esperava na saída, me pegou no colo e me levou para bem longe, enquanto eu chorava de vergonha.
-Isso acontece, calma.
Mas eu sabia que não era verdade.

Xixi na cama sim era normal, agora xixi na roda gigante era só comigo.

Um dia, acordei amargurada, e disse para minha mãe:
-A gente tem que ir embora daqui.
-Para onde?
-Para São Paulo, lá ninguém vai me reconhecer.
-Até parece que a família inteira vai mudar de cidade só por causa de um simples xixi, esquece isso, vai brincar.

Brincar? Eu não tinha mais cabeça.
Amadureci com o sofrimento.
Neurotiquinha que era, pensava nisso vinte e quatro horas por dia.
Não era um simples xixi.
Era minha desmoralização completa.
Se ela não queria me levar embora, só me restava fugir.

Arrumei minha malinha com tudo que precisava para começar uma nova vida longe dessas lembranças.
Me despedi do quarto e beijei cada brinquedo.

“Vou sentir saudades, fiquem bem, um dia eu venho buscar vocês”.

Lembrando disso agora, queria poder voltar no tempo, entrar naquele quarto, abraçar essa menina, e dizer para ela:

-Ei, vai ficar tudo bem, enxuga essas lágrimas, daqui muitos anos todo mundo vai rir dessa história até você.

Tudo passa.

E passou mesmo.
Não fugi coisa nenhuma, e hoje conto essa história para dar paz a essa criança atormentada, que ainda mora dentro de mim.

Mas se tem uma coisa boa nessa minha minitragédia foi tudo isso ter acontecido na década de oitenta.
Ninguém filmou.
Ninguém fotografou.
Não viralizou.
Não virei um Gif animado, nem um vídeo no YouTube, com um milhão de visualizações.

Tenho pena das crianças de hoje, elas não têm a mesma sorte.

Suas vidinhas são filmadas e fotografada incansavelmente, e circulam por aí em fotos, vídeos e Gifs “supostamente” engraçados.

A menina da roda gigante queria abraçar todas essas crianças, e dizer para elas que tudo passa.
Mesmo ficando para sempre na internet.