Perdão, Edna.

 

Não curto mergulho.

Tenho medo, fobia e acho uma falta de educação com os peixes.

Peixe tá lá na dele assistindo um Jornal Nacional com a família, uma série do Netflix ou numa reunião, e do nada, entra do nada um humano desconhecido com um pé de pato ridículo fosforescente.

Algum peixe já entrou na sua casa assim?

Então.

Mas dessa vez era Noronha.

-Também não gosto de snorkel, tenho um nojo absurdo.

Mas era Noronha.

Quantas pessoas já babaram ali?

Noronha.

-Tá, só vou baixar a cabeça rapidinho sem respirar, ok?

Falei pra Edna, a guia que me convenceu.

– Você nem vai ver passar.

Mas quando a gente estava saindo para o mar um cara falou para ela:

-Não esquece que a praia fecha ás 16h.

-Como assim uma praia fecha?

-É por causa do ataque de tubarão que teve aqui.

-O queeeeeee? Falei já vestida com todo o equipamento e o pé de pato.

-Não precisa ter medo eles não fazem nada.

– Não quero mais ir… tenho medo de Tubarão desde 1992 quando tinha aquele filme na Tela Quente com aquela música que vai crescendo quando ele vai se aproximando.

Ela nem ouviu e foi me puxando.

-Cadê o mergulhador que vai me levar?

– Eu vou te levar. Disse a Edna.

-Você? Minha perna bambeou.

Pausa aqui para meu feminismo tomar água.

Nunca na vida imaginei uma mulher me defendendo de um ataque de um tubarão.

Sempre imaginei um cara fazendo isso.

Mas se eu falasse isso, cairia por terra todo meu ativismo.

Fui meio chorando para o mar.

-Cadê a lancha?

– Que lancha? Somos nós duas nessa boia.

Eu e a Edna em alto mar com golfinhos, tartarugas, peixes com estampas incríveis, tubarões e uma boia vermelha super instagramável.

Fui rezando o pai nosso.

Quando estávamos em alto mar verde claro deslumbrante, lembrei que além do tubarão ainda tinha o snorkel.

Quantas pessoas desconhecidas babaram ali naquele cano que estava na minha boca?

Era muita coisa para superar.

Saindo desse mar eu vou voltar para São Paulo, chega.

Baixei a cabeça e fui indo.

Comecei a ver muito peixes coloridos, dei uma desencanada.

Caralho, era bonito mesmo lá embaixo.

Vi um peixe roxo com amarelo, nunca pensei em misturar essas cores, mas ficou linda nele.

Chegando vou fazer essa mistura numa roupa.

Meu Deus! Um rosa millenium.

Mais para frente vários listrados de azul fosforecente.

-Migo, arrasou na estampa se a C&A te vê você vira coleção.

Tudo muito lindo, mas, quem colocou a boca aqui antes de mim?

Não conseguia me concentrar.

Quanto de baba tinha naquele snorkel?

Colocar isso é como beijar um desconhecido por 1 hora.

Enquanto eu pensava nisso uma tartaruga bebê, que linda.

Quantas vezes uma pessoa baba num snorkel em uma hora?

Vou pesquisar no Google quando chegar.

Enquanto eu pensava isso a mãe da tartaruga bebê apareceu. Esqueci o snorkel por alguns minutos para olhar porque ela tinha o tamanho da minha mesa de jantar de 8 lugares e nadava com uma tranquilidade de dona do mar.

Posso jurar que ela me mandou um beijo.

Mas talvez tenha sido com o olhar.

A Edna fazia joia com a mão a cada 5 minutos para saber se eu estava bem.

O fundo do mar de Noronha era lindo e eu respondia que sim, estava tudo maravilhoso.

Esqueci da baba do snorkel.

Esqueci do medo do tubarão.

Esqueci do medo de não ser um cara me defendendo e fui muito feliz enquanto durou o mergulho.

Saindo do mar abracei a Edna emocionada.

Contei para ela do meu medo de ir com ela para o mar.

Pedi desculpas dizendo que minha carteirinha de feminista deveria ser cassada.

Ela riu e disse que eu não era a primeira a ter esse preconceito.

“Muitos desistem na minha cara, bom para os meninos, que lucram mais que eu”.

Falou sem raiva nenhuma apenas como constatação.

Escrevo esse texto para dizer que a Edna é foda e não tenho dúvidas que ela sairia na mão com qualquer tubarão para me defender.

Não cometam o mesmo erro que eu.

Procurem por ela na Praia do Sueste.

Perdão, Edna.