Uber gata

Como se não bastasse todas as maravilhas que já sabemos que o Uber possui, como:

Banco de couro.

Água geladinha.

Revista semanal.

Chocolate belga.

Preço incrível.

Ainda temos mais uma novidade.

Mulheres deslumbrantes no volante.

Toma essa, diz a vida com ironia.

Não me faltava mais nada.

Sofro de ciúme corrosivo, e tenho um marido que só usa esse transporte.

Como não tenho o aplicativo, toda manhã peço para ele:

– Amor, pede um Uber para mim?

Ele pede, eu entro e vou.

Sempre vinha o Ariovaldo, o Claudio ou o Altamir.

Até que veio a Nara.

Abri a porta do carro, falei bom dia e dei de cara com a cara linda dela.

Virou-se para mim com a beleza e a leveza que as beldades dos comerciais de shampoo se movimentam.

Com uma voz rouca e sexy, perguntou:

– Vamos para onde?

Tive vontade de responder:

– Para o inferno, sua cretina maravilhosa.

Eu, você e sua boca volumosa.

Mas fingi calma e simpatia.

– Vamos para a Vila Olímpia, querida.

Pelo brilho do cabelo dela eu podia ver minha cara inchada, sem maquiagem e perplexa.

Desde quando mulheres perfeitas dirigem Uber?

Não era possível.

Essas moças tinham que estar numa passarela, num comercial de perfume francês ou em Búzios, tomando sol. Não aqui, dirigindo exclusivamente para o meu marido.

Mentira.

Feministas: eu não penso assim de verdade.

Só estou em choque.

Mando minha paranóia se calar.

Mas ela insiste.

Em silêncio, rezo um pai nosso para agradecer por a Nara ter vindo me buscar.

“Que para ele chegue o Ariovaldo, gordinho fofo e suado.

Amém”.

Não é nada fácil ser desequilibrada.

Como o trânsito estava parado começamos a conversar.

Eu, com a maldade de quem quer conhecer os inimigos.

Ela, com a doçura de quem só quer bater um papo e ser gentil.

Me contou a vida.

Me ofereceu chocolate.

Se perdeu várias vezes no caminho.

Me implorou desculpas.

Eu ajudei, e ainda disse:

– Acontece, fica calma que eu vou te ajudar.

Por dentro eu tava feliz.

Linda e péssima no volante.

Não vai longe, não.

Mas ela disse que estava indo muito bem.

Tinha perdido o emprego, e o Uber foi a maneira que conseguiu de ganhar um dinheirinho.

– Agora tá dando para pagar as contas.

Falou com uma humildade esplêndida, que fez toda minha maldade e insegurança descerem do carro com vergonha de existir.

Linda, atenciosa e legal para cacete.

Só me faltava essa.

Quando vi, estávamos falando do trânsito, da economia, sapatos, homens, livros e amenidades em geral.

Aos poucos, fui perdoando toda sua beleza.

Aposto que ela também teria perdoado minha inveja.

Ela não tinha culpa de ser linda.

Nem eu de ser louca.

Ficamos amigas.

 

Texto publicado originalmente no site da Veja Sp em abril de 2016.

 

Recebeu meu invite?

São Paulo já foi conhecida como a terra da garoa.

Mas por mais que já tenha chovido bastante, não é o que temos de mais abundante por aqui.

O que chove mesmo é Invite para reunião.

Um atrás do outro.

-Recebeu meu invite?

-Sim.

-Mas você não deu ok?

-Não sei dar ok. Mas eu vou.

Não tenho outra alternativa.

Pior que ir para uma reunião, é ter que aceitar o Invite para ir.

Segundo pesquisas, somos a cidade com mais reuniões do mundo.

Estimativas mostram que mais de cem mil delas ocorrem diariamente na capital.

Sendo que 96% não servem para nada.

Mas não importa.

O que importa é ter uma sala lotada de figurantes com slides passando sobre qualquer coisa.

O paulistano precisa participar de pelo menos três reuniões por dia. Para a vida valer a pena.

Senão, melhor nem sair de casa.

O máximo pode ser dez.

É o auge.

A consagração.

Fingindo exaustão, mas explodindo de felicidade, eles repetem.

-Tive dez reuniões hoje.

Como se pedissem.

Me entreguem um prêmio.

Me abracem.

Me amem.

Se duvidar, tem discurso do Box do banheiro no fim do dia, com sabonete de microfone.

“Queria agradecer, meu pai e minha mãe, e aos meus chefes.

Pela graça dos invites alcançados”.

Às vezes nem chega a dez.

São quatro bem longas, mas dá para arredondar.

Quem há de questionar?

Duas coisas não podem faltar nunca.

Uma é o café fresquinho.

A outra é o pessoal que faz figuração.

São eles que caracterizam como reunião aquilo que poderia ser resolvido facilmente entre duas pessoas.

No máximo três.

Se houvesse foco.

Mas não há.

São vários tipos de figurantes.

Tem aquele que fica com o olhar perdido no infinito, mas anota tudo quieto.

Tem o chato reprimido, que fala qualquer coisa só para mostrar para o chefe que está por dentro.

Tem o humilhado, absolutamente indispensável.

Constrangimentos são sempre bem-vindos.

E tem eu.

Que escrevo esse texto.

Enquanto finjo participar de uma.

Me chamar para uma reunião equivale chamar uma criança para tomar injeção.

A diferença é que ela vai gritando.

Enquanto eu vou em silêncio.

Ao longos desses duzentos e trinta anos que participo de reuniões sem fim, desenvolvi algumas técnicas que me salvam da morte lenta enquanto alguém mostra um slide com gráficos.

Uma delas é tomar bastante água.

Não por sede.

Mas para ganhar tempo.

Calculo o tempo que vou levar para pegar o copo.

Encher, levar até a boca e dar o gole.

Só aí já são dez segundos.

Se tomar cinco copos já são cinquenta segundos a menos.

Parece nada.

Mas dá quase um minuto.

Faço o mesmo com o café.

Até pegar a xícara, colocar o adoçante, mexer bem devagar a colherzinha e tomar.

Às vezes, eu até finjo que queimei a língua, só para pedir licença, e sair por cinco minutos.

Cinco minutos.

Trezentos segundos.

É como ganhar na Mega-Sena do tempo.

Pareço uma sequestrada pedindo ajuda com os olhos enquanto entram novos slides na tela.

Só tem uma coisa pior que tudo isso.

É ter que passar por tudo isso, outra vez.

Acontece muito.

Quando a reunião está super adiantada, quase terminando, por dentro eu já estou vibrando.

Ufa, Cabô!

Já começo a dancinha da volta para mesa.

Em câmera lenta a porta se abre.

E entra alguém atrasado.

Nunca é qualquer pessoa.

Sempre é alguém muito importante.

Que estava preso em outra reunião.

Recomeçamos, do zero.

Todo mundo sorri, fingindo compreensão.

Eu quero morrer engolindo a própria mão.

Mas não posso.

Ainda tenho mais três reuniões pela frente.

Talvez dez.

Ou nenhuma.

Depois desse texto.

 

Texto originalmente publicado no site da VejaSP em abril de 2016.

 

#AboutLastNight

Nunca vou entender essa hashtag.

Mas confesso que perco meu tempo tentando.

Quem são as pessoas que usam?

Que medicamento tomam para controlar a ansiedade?

Eu não consigo postar um negócio só no dia seguinte.

Quero postar tudo na hora.

Mas são mais de 2 milhões de fotos com #AboutLastNight por aí.

Segundo estatísticas (da minha cabeça) a maioria delas está no Jardins.

O bairro onde ninguém precisa ter pressa para postar o registro dos seus melhores ângulos.

 

O lugar onde o glamour pode e deve ser esticado até o dia seguinte.

 

Vai que amanhã não acontece nada.

Vida vazia?

Nunca.

Sempre poderemos falar sobre ontem à noite.

 

Jardins é a confortável sala de estar de São Paulo.

Com pufs e espelhos dourados, para todo mundo se admirar.

Um bairro que reúne a nata da sociedade Paulistana e do Zodíaco.

Leoninos, com ascendente em leão e lua em rei leão.

 

– Nossa, tô um arraso.

Mas amanhã eu posto.

 

Vinte e duas horas os restaurantes começam a lotar de gente linda, descolada e disposta a gastar um salário mínimo num jantar com amigos.

Amigos também abençoados pelos dígitos infinitos do Itaú e pelo bronzeado do último final de semana em Trancoso.

Até a fila para tirar o Visto é mais rápida do que a fila para conseguir sentar em um dessas mesas, onde os drinks custam o preço de um órgão.

Mas chegam diretamente do paraíso.

Um anjo loiro com cachos macios e hidratados desce do céu para entregar em mãos.

Geladinhos e com uma azeitona na ponta.

Ah, então vale super a pena.

Tudo vale a pena quando a conta bancária não é pequena.

As pessoas que jantam em mesas de madeira maciça esculpida com o sacrifício de cem árvores não se importam com o preço de drinks.

Não se importam com o preço de nada.

Crise aqui, só existencial.

A única preocupação é ter boas fotos para postar.

No dia seguinte.

Que fique claro.

Das calçadas brotam tapetes vermelhos e felpudos a cada vez que alguém dá um passo.

Como se fossem ciclovias especiais para Louboutins.

Os postes são programados para soltar uma borrifada de Dior a cada vinte segundos.

O miolo mais milionário de São Paulo tem o cheiro do paraíso.

E todo mundo tem dinheiro suficiente para viver para sempre tomando drink e ouvindo lounge.

Enquanto Vila Olímpia ostenta um crachá.

Jardins segura um drink doce, caro e geladinho.

Enquanto Itaim faz Happy Hour de engravatados.

Jardins reúne amigos de infância do colégio mais caro da cidade.

Quase todo mundo já herdou ou vai herdar uma fortuna.

Ninguém tem pressa.

E toda noite merece uma foto.

No dia seguinte.

Postada da cama, ao meio dia.

About Last Night.

Vocês não imaginam a sensação maravilhosa que é ser rico no Jardins.

Nem eu.

 

Texto originalmente publicado no site da VejaSP em abril de 2016.

 

Me solta, Lava-Jato?

Enquanto aguardamos cheios de expectativa a prisão dos envolvidos nos escândalos da Lava-Jato, não estamos percebendo uma coisa bem simples.

Estamos todos tão presos quanto eles.

A diferença é que cumprimos pena a céu aberto.

Livres, porém algemados num um único assunto.

Cumprimos pena tomando uma cerveja.

Cumprimos pena discutindo no Facebook.

Cumprimos pena fazendo Pilates.

Lutamos contra o golpe mas vivemos uma ditadura particular.

Brigamos contra corrupção enquanto nossos amigos são roubados com nosso consentimento.

Paulista na sexta?

Unfollow.

Paulista no domingo?

Unfollow.

Que pena, eram tão legais.

Mas coxinhas não passarão.

Defensores do governo também não.

Perdi as contas de quantos amigos a Lavo-Jato me roubou.

Só dá ela.

Na fila do cinema, no trabalho, nos restaurantes.

O filme perdeu a importância.

job ganhou prazo.

A foto do prato gostoso não vai mais para o Instagram porque toda e qualquer postagem que não seja sobre isso não vale um like.

Parece um heresia falar de outra coisa num momento como esse.

Velho Chico?

Bonita novela, mas que semana para estrear.

Obama em Cuba?

Histórico, mas não agora.

O auge da loucura foi quando minha mãe me ligou chorando para contar que uma amiga havia morrido.

-Que pena, mãe.

Juro que meu primeiro pensamento foi:

“Que chato morrer bem agora e ficar sem saber o que vai acontecer”.

Por favor, vamos ficar meia hora sem falar disso?

Todo mundo concorda, saturado.

Cinco minutos depois estamos todos de novo falando no grande absurdo que se tornou tudo isso.

Três minutos e estamos brigando por um dos lados absurdos de tudo isso.

A Lava-Jato não está prendendo apenas políticos

Está me prendendo.

Prendendo você.

Seus amigos. Seu chefe. Seus pais.

Somos todos prisioneiros.

Sobre o que falaremos quando tudo isso acabar?

Estamos no epicentro de uma cadeia sem grades.

Não vejo a hora dos culpados serem presos.

Para gente ser solto.

E voltar a viver.

Vai ser uma delícia reencontrar todo mundo

 

Texto originalmente publicado no site da VejaSP em março de 2016.

 

Fotos para usar, caso eu desapareça

Quando abro os sites de notícias e vejo a foto de pessoas que estão desaparecidas, fico analisando a foto que colocaram da pessoa.

Um dos maiores medos que tenho na vida não é desaparecer, mas que escolham uma foto feia para me procurar, caso aconteça.

Na correria pessoal acaba pegando qualquer uma para divulgar.

Por favor, não façam isso.

Documento, por exemplo, é jogo baixo.

A foto do meu passaporte, não sou eu.

Estava com cabelo sujo, gripe e sono.

Como sair bem numa hora dessas?

Mas por nove anos longos anos serei a pessoa daquela foto.

Toda vez que fizer uma viagem, voltarei a ser feia como naquele dia.

Não acho justo.

Mas como não viajo muito, mantenho essa minha versão guardada numa gaveta dentro de um envelope.

Quase nunca nos encontramos.

A foto do perfil do Facebook é outra que também não sou exatamente eu.

Estava na praia, bronzeada, feliz e ainda coloquei 5 filtros do Instagram para ajudar.

Fiquei muito bem, claro.

Mas sou eu?

Também não.

Me sinto meio enganadora, mas não há virgem naquele bordel.

Esses dias achei uma foto de quando eu tinha 17 anos.

Maior empolgação. Nossa, tô linda! Vou postar.

Aos dezessete todo mundo tem a boca formato de coração, maçãs altas e a cara corada com blush natural da vida.

Tava impresso ali a saúde e a vitalidade de quem comia cinco coxinhas no recreio e ainda tinha a barriga chapada.

Saudades dessa filha da mãe que um dia fui.

Meu inbox pipocou de ex elogiando.

Quando vi estava com ódio de mim aos 17.

Ciúme, inveja e recalque.

Não sou mais você, embora já tenha sido.

Rasguei a foto em mil pedacinhos.

Agora chega de elogiar essa vaca.

As três, apenas impostoras querendo se passar por mim.

A bronzeada, a gripada e a jovem corada.

Nenhuma me representa.

Para não ter erro, criei uma pasta no Mac com o titulo “fotos para usar, caso eu desapareça”.

Separei ótimas opções reais de mim.

Procurem lá.

Levo muito a sério minhas paranóias.

 

 

Meio-dia na Vila Olímpia

Se na hora do almoço você começar a ouvir palavras em inglês no meio de diálogos em português, como brainstorming, benchmarking, turnover, budget e deadline, pode ter certeza: você está na Vila Olímpia! O bairro de São Paulo que faz fronteira imaginária com Miami.

Um reino encantado onde a moeda de troca chama Visa Vale.

A terra do crachá ostentação.

Aqui, encostar sua perna todos os dias em uma catraca dourada faz de você um vencedor.

Eleito pelo Guinness como o bairro que tem o recorde mundial de lentidão na fila do quilo. As pessoas vivem correndo e atrasadas, mas a escolha do palmito é feita em câmera lenta. Sempre toca Carruagem de Fogo nesse momento mágico.

Um bairro que se basta.
Somos Los Angeles.
Temos coqueiro.
Somos Itália.
Temos Eataly.
Somos Somália.
Temos favela.
Somos CEO.
Temos motoboy.

A Marginal (mesmo lenta) é nossa; a Bandeirantes também; um pedaço da Faria Lima, com certeza.

Se a gente quisesse, poderíamos declarar guerra e virar um país.

Aqui você pode dar dez passos e comprar um Porshe na esquina. Ou dar três e negociar qualquer coisa por dez reais com o camelô. Ou ainda comprar uma bolsa de trinta mil no Shopping JK e depois fazer uma cara triste quando passar na favela ao lado:

—Puta desigualdade, né?
—Esse pais tá foda.

Às vezes, vejo guias de viagens com grupos.

—Ali fica a Nestlé.
—Lá: Starbucks, Alpargatas e a Oi!
—Ah, e ali ó, atrás daquele prédio, tem a Motorola, a Sony, a Ericsson, Intel e a Microsoft.

Visitantes se emocionam como se o Mickey, o Papa e a Torre Eiffel estivessem juntos em um lugar só.

Na hora do almoço, o restaurante japonês da Cardoso de Melo bomba. Engravatados ostentam seus crachás de multinacionais. O shoyu está ralo de tanta água, mas todo mundo está dando risadas altas e corporativas; ninguém se importa.

-Aceita Visa Vale?
-Ah, então tá ótimo.

Moças bonitas com saltos altíssimos se equilibram na fila dos restaurantes lotados e se chamam de “amiga”. Ou pior, “miga”.

Quero morrer de desgosto, mas continuo viva em pleno sol do meio-dia.

Todo mundo aqui fala muito alto e precisa ser ouvido. Se chegou na Vila Olímpia é porque o sujeito é foda. Deixa ele gritar e escuta, mortal.

Assim, os restaurantes estão cheios de gente supostamente muito foda berrando no ouvido de gente nem tão foda assim, mas que está fazendo MBA para chegar lá.

Todo mundo está muito atrasado para uma reunião muito importante daqui a pouco. Reunião essa onde brainstorming, benchmarking, turnover, budget e deadline serão pronunciadas 3897 vezes em vinte minutos. Eu já contei.

Em todos os grupos barulhentos, o assunto é apenas um: o chefe escroto babaca filho da puta. Falar mal do chefe é o hino da Vila Olímpia.

Tenho vontade de sentar no meio fio e rezar por nós.

Nem a seca do sertão nordestino deixa as pessoas tão miseráveis.

Mas aqui não é sertão.
Aqui é mar.
Sem água.
Mas quem se importa?
É só um detalhe.

—Aceita Visa Vale?
—Ah, então tá ótimo!

Adeus, mundo.

Entrei no primeiro taxi que apareceu.
Expliquei que precisava chegar no Belas Artes em 15 minutos.
O taxista riu.
Contei para ele que meu dia tinha sido muito difícil porque Mercúrio está retrógrado, a lua fora de curso e ver esse filme era minha única chance de ter esperança outra vez.
-É um filme francês, moço…
-Tá.
Daquele festival famoso, o Varilux, sabe?
-Tátátátátá!
Ele prometeu que daria tempo, acho que mais para eu ficar quieta.
E quando estávamos em alta velocidade pelas ruas, percebi que tinha esquecido o óculos, e como não enxergo bem no escuro, olhava para ele e via um vulto meio dentuço e assustador.
Ele dizia coisas do tipo:
– Vai dar tudo certo, pode ficar calminha.
E ria.
Não conhecia nenhuma rua que ele entrava.
Mas eu não conheço rua mesmo, até ai beleza.
-Não é melhor colocar no Waze?
– Fica tranquila gata, sei bem esse caminho.
-Imagino que sim.
Que merda fui fazer de não usar o aplicativo 99.
Tava na cara que isso não ia acabar bem.
Tarde demais.
Peguei um frontal sublingual na bolsa, senti derreter na língua deliciosamente, provavelmente pela última vez.
Ao menos, morrerei bem medicada.
Coloquei os fones. Tocava Bach.
Me pareceu um aviso.
A música tinha algo de “grand finale”.
Lágrimas.
Tive uma vida muito boa.
Ele começou a falar com alguém no telefone.
– Consegui a encomenda. Chega ainda hoje.
Encomenda?
Tava absolutamente claro que era eu.
Suando frio, tirei os fones para ouvir, ao menos eu deveria saber para onde seria levada.
Comecei a rezar.
Ave Maria…
Esqueci a letra.
Coloquei no Google “ Ave Maria” letra completa.
3 g não funcionou, claro.
Me dei conta que faz muito tempo que não rezo.
Minha vó sempre dizia para rezar todo dia.
Que saudade dela.
Mas talvez a gente se encontre daqui a pouco.
Olha, é muita injustiça ir parar no fundo de um rio para sempre, no único dia que consigo sair cedo da agência.
Meu Deus, gosto tanto da vida.
Sei que eu reclamo de tudo o tempo todo, mas é da boca para fora.
(Grito em pensamento).
É da boca para foraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.
Não quero ser morta por um taxista dentuço e jogada no rio Tietê.
Minha diretora de criação nunca vai acreditar que morri.
Vai achar que estou inventando para não entregar os jobs de amanhã.
Coloquei meu vestido novo da Renner (desculpa, Bob).
Meu cabelo curto ta tão legal, minha mãe ainda nem viu.
Eu só queria ver um filme para relaxar.
Inacreditável tudo acabar numa quarta feira tão sem carisma.
Nem falei com a Duda.
Passei brigando por causa de um roteiro besta.
Devia vir um aviso do céu em caso de último dia de vida.
Não é justo viver de qualquer jeito os últimos instantes.
Ave Maria cheia de graça senhor é convosco… 3g filho da puta.
Comprei um vidro enorme daquele shampoo milagroso, demorou tanto para chegar e nem vou conseguir usar.
Vou mandar uma mensagem para minha irmã avisando para ela pegar.
Custou caríssimo.
Estou prestes a ser esquartejada e jogada no rio mais imundo do universo e o fato de estar pensando no preço do shampoo só mostra o quanto estou apegada a esse mundo.
Minha alma nunca vai descansar em paz.
Vou viver no limbo.
Por que?
Por que ? Fui entrar nesse taxi?
Fecho os olhos.
Não quero mais ver nada.
Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome não lembro o resto mas me salva, me salva, me salva…
-Chegamos.
-Onde?
-No cinema.

Pago a corrida e ele me deixa em frente ao Belas Artes.
Conforme o combinado.

Não é fácil viver dentro da minha cabeça, amigos.

Francisco, meu herói

Fui para o Rio fazer um curso e uma amiga me emprestou o apartamento que estava vazio nesse fim de semana.
Eu só teria que pegar a chave na portaria, subir, abrir a porta e entrar.
Parecia bem simples.
Mas aí vem a vida com a sua foice.
Subi com a mala, tentei várias vezes abrir a porta, que claro, não abriu.
Desci com a chave na mão para avisar o porteiro que não estava conseguindo entrar.
A chave caiu.
Ela poderia apenas ter caído no chão elevador.
Mas onde ela caiu?
No poço.
P-O-Ç-O.
Fiquei catatônica olhando pro buraco.
Decidindo se entrava num desespero controlado ou ia direto pro choro compulsivo.
Francisco, o porteiro, percebendo a movimentação veio ver o que estava acontecendo.
Quando contei, ele também não conseguia acreditar.
Agora éramos nos dois não acreditando juntos.
-O que eu vou fazer? Não tenho outra casa para ir. Não posso arrombar o apartamento da minha amiga. Não tem como entrar no buraco para pegar.
-Calma. Ele disse e saiu.
Sentei na mala e fiquei sozinha no subsolo esperando que a chave se arrependesse e voltasse para minha mão. Um milagre, tipo o de Lázaro.
Nisso vejo o Francisco voltando com uma para pá, totalmente decidido.
-Vou tirar esta chave daí para você.
-Não dá! Esse elevador é muito antigo, pode cair na sua cabeça.
-Segura essa porta para mim.
Segurei com toda força do mundo.
Ele deitou no chão e ficou com a metade do corpo dentro do poço tateando cada pedacinho do chão com a pá.
Eu tentava ajudar iluminando com a luz do celular, mas não podia ir muito longe porque ou derrubaria o aparelho ou soltaria a porta, e então o elevador se espatifaria decepando a cabeça dele na minha frente.
Fiquei imaginando o corpo sendo cortado pela metade e sangue jorrando para todo lado.
Meu Deus.
Como eu ia dizer para família dele que a culpa foi minha?
– Então pessoal, negócio é o seguinte, matei o pai de vocês mas foi sem querer.
Imaginei a viúva e os 5 filhos do Francisco me condenando para sempre.
Sem pai, eles teriam que parar de estudar para vender doce no sinal.
Só vim fazer um curso no Rio e acabei com o futuro de cinco crianças.
E ainda vou perder a festa na casa do Xampu.
Nunca mais vou pisar nessa cidade.
Nunca mais vou entrar num elevador.
Vou trabalhar para pagar terapia.
Ou pior, talvez seja até presa.
Nisso Francisco levanta e diz.
-Vou ter que entrar no poço, tem jeito não.
-Não, por favor, esquece essa chave, vou para um hotel.
– Segura essa porta com força.
Decidido pegou uma escada e entrou.
Comecei a rezar imaginando a notícia nos jornais de Copacabana.
“Loka derruba a chave no poço e porteiro morre esmagado ao tentar recuperar”.
Quarenta minutos depois, enquanto eu esperava de olhos fechados o estrondo do elevador que amassaria o Francisco e acabaria com a minha vida para sempre escutei um grito:
– Conseguuuuui.
Sujo, suado e descabelado, ele saiu do poço com a chave na mão.
– Viu, para tudo tem jeito, não pode se desesperar.
Não aguentei e dei um abraço muito apertado.
Por pouco não dei um beijo na boca.
Conheci muita gente incrível esse fim de semana.
Pessoas descoladas,inteligentes, cultas, famosas, mas se tem alguém que vou lembrar para sempre é do Francisco.
Sujo, suado e descabelado.
Meu herói.

 

Vamos marcar?

Hoje acordei pensando nas cem coisas que marquei essa semana e vou ter que desmarcar.
Liguei para uma amiga e avisei:
-Aquele almoço que a gente combinou não vai rolar.
– Nossa, nem lembrava.
Tá desse jeito o negócio.
Eu preocupada e ela nem lembrava.
Outro dia fui numa despedida de um amigo.
Tava morta de preguiça, mas não achei uma boa desculpa a tempo, então tive que ir.
Quando vi tinha marcado mais dois almoços e uns três aniversários.
Saí com mais 5 coisas.
Sou muito mole. Sou.
Era só falar não? Era.
Mas não consigo. Ninguém consegue.
Essa coisa é igual areia movediça.
A gente vai se afundando.
“Vamos marcar?” virou uma saudação.
Uma espécie de “oi” da nossa época.
Você olha para pessoa a pessoa olha para você e pá acontece.
E assim vai.
Em 2% dos casos existe uma boa intenção, às vezes a gente acha que vai conseguir.
Que vamos sair cedo.
Que o trânsito vai ajudar.
Que a preguiça vai dar trégua.
Mas em 98% dos casos agimos como mentirosos compulsivos, coagidos sociais, porque a gente marca mesmo sabendo que não vai cumprir.
Depois é só desmarcar.
Um whatsapp com uma mentirinha e tá tudo resolvido:
Tô preso numa reunião, tenho dentista, meu cachorro passou mal.
A pessoa do outro lado sabe que nem cachorro você tem, mas nem questiona porque na verdade ela também tava pensando na desculpa que ia dar.
Ninguém tá verdadeiramente interessado.
Mas não é de hoje.
Ouvi dizer que foi super complicado para Jesus reunir os 12 apóstolos para Santa Ceia porque toda semana alguém desmarcava.
“Vamos marcar a última ceia?”
-Bora lá!
-Tô dentro.
– Ih hoje não posso, marquei de sair com a Madalena.
Judas, sabendo que sua batata tava assando foi um que desmarcou várias vezes.
Foram anos para conseguir reunir toda galera e ‪#‎partirsantaceia‬.
E desde então o negócio só piorou.
Nesse minuto, enquanto estou aqui escrevendo, umas trezentas mil pessoas estão marcando alguma coisa que vão desmarcar.
Não sei para vocês, mas para mim deu.
Cansei dessa vida.
Não quero mais ser esse tipo de gente.
A partir de agora só vou marcar o que der para cumprir.
-Vamos marcar?
-Não vamos.
-Ou vamos, se for de verdade.
Caso contrário…
Deixa acontecer naturalmente.
Igual a letra do pagode.
Tudo isso aí é para dizer que não vou em nada que marquei essa semana.
Beijo e tá tudo desmarcado.

 

Adeus, Inês.

Tive que demitir a Inês, minha faxineira.
Depois de muitos anos, ver outra pessoa limpando o apartamento hoje de manhã partiu meu coração.
Nunca mais reclamar porque ela estragou uma blusa, não limpou onde pedi e principalmente, nunca mais dar uma “stalkeada” na vida do meu ex, vai ser bem duro.
Ela trabalhava na minha casa e na dele, portanto uma mina de informações.
Segunda lá em casa, terça na dele, quarta lá em casa, quinta na dele.
Sexta não sei onde ela ia.
-Tem coisas dela lá? Ela é bonita? Inês, fala a verdade para mim.
– Você é bem mais bonita que ela.
– Jura?
– Juro.
-Se ele perguntar de mim, você diz que eu morri e meu enterro foi semana passada…
-Eu não vou falar isso.
-Tá! Mas faz um favor enorme? Leva essas coisas e entrega para ele.
-Ele também quer te mandar umas coisas que estão lá.
-Não precisa, pode jogar tudo … peraí, tem um livro que eu quero de volta sim, não vou jogar o Complexo de Portnoy fora.
Philip Roth não tem nada a ver com essa palhaçada.
-Eu pego para você.
-E se ele insistir em perguntar, você diz que eu casei ontem. Uma festa incrível para 1000 convidados.
-Não vou falar nada disso, tá?
-Tá. Ele que se foda, não precisa falar nada. Só troca o lençol para mim, coloca aquele listradinho de azul e passa o aromatizador de alecrim da Lelis Blanc pela casa toda.
E agora nunca mais a Inês.
De manhã quando abri a porta apareceu a Ângela, com a saia no pé e uma Bíblia cor-de-rosa debaixo do braço.
Como se anunciasse a paz.